
por Frater Parsifal
"Ser intensamente patriótico é, primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos, e fazer o possível para que se valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação — que é a soma viva dos indivíduos que a compõem, e não o amontoamento de pedras e areia que compõem o seu território, ou a coleção de palavras separadas ou ligadas de que se forma o seu léxico ou a sua gramática — possa orgulhar-se de nós, que, porque ela nos criou, somos seus filhos; e seus pais, porque a vamos criando."
FERNANDO PESSOA
Ser cidadão de um país livre, principalmente um que se gaba de ser capitalista, consiste em ser o patrão de todos aqueles que são pagos pelo seu trabalho com o dinheiro dos impostos do país. Isto inclui todos os tipos de funcionários públicos: soldados, policiais, servidores civis. Inclui desde o mais humilde limpador de ruas até o presidente da república.
Sua atitude, portanto, para com toda essa gente — desde que estejam cumprindo suas funções empregatícias — deve ser a de um chefe para com os assalariados.
É errado respeitar o presidente da república como figura de autoridade pública: é o presidente quem tem que respeitar você. No exercício de suas funções, ele é seu empregado.
O exército é seu empregado. Está contratado para defender a segurança de você, não para atacá-la.
A polícia é sua empregada. Está sendo paga para manter a sua paz de espírito e defender a sua privacidade, não para invadi-las.
Qualquer funcionário público é seu empregado. Está sendo pago com o seu dinheiro para servir escrupulosamente e de boa cara aos seus interesses.
Compreender este fato, e agir de acordo com ele, é essencial ao funcionamento de uma verdadeira democracia, principalmente uma democracia que se diz capitalista.
Não pense que vai ser fácil agir assim. Devido ao condicionamento psicológico das religiões opressoras, a atitude desses empregados para com você tende a ser justamente a oposta.
Ao adotar uma atitude de cidadão de um país livre, você incorrerá no ódio e no desrespeito dos maus soldados, maus policiais, maus funcionários e maus presidentes. No entanto, você deve insistir! Não se encolerize nem se impaciente; mas insista, com tranqüilidade e firmeza, em seus direitos. A Ordem pretende auxiliará você em todos os planos em que você tem consciência e volição.
Considere que maus soldados e maus policiais são conseqüências, e não causas. Da mesma forma, maus presidentes. Toda nação tem sempre o governo que merece. As tendências à desonestidade e à desordem existem sempre onde as leis que regulam a vida em sociedade são más.
Quando é que uma lei é má? Primeiro, quando ofende algum aspecto fundamental da natureza humana; segundo, quando é uma lei que não pode ser posta em prática.
O resultado dessa atitude foi a propagandização forçada de um grande número de falsidades que envenenam ainda a vida emocional da sociedade brasileira e enfraquecem o caráter e a saúde dos cidadãos.
Uma coisa que todo cidadão de um país livre necessita acima de tudo compreender é que ele é o dono do país. Presidentes, funcionários públicos, policiais (toda essa gente, aliás, pode ser englobada sob a definição de funcionários públicos, e portanto, como já dissemos, empregados dos cidadãos) ou quaisquer outras "autoridades" — não são, realmente, autoridades. A autoridade em seu conjunto são os cidadãos, de quem toda essa gente não é mais do que os representantes; e freqüentemente maus representantes.
É o país que tem obrigação para com os cidadãos. Portanto, se as leis do país infringem as legítimas liberdades dos cidadãos, essas leis que devem ser mudadas, e não os cidadãos que devem ser punidos!
Cada cidadão deve se considerar, a qualquer momento, como mentor da nação. Não é o governo que tem o direito de se sentir paternal — ou maternal — para com os cidadãos de um país: são os cidadãos que têm o direito de se sentirem donas e donos, patroas e patrões do governo.
O cidadão normal tem absoluto direito, se assim quiser, de se defender de um ladrão ou um assassino. Já o policial não é um cidadão normal: em virtude de sua peculiar posição como empregado do conjunto dos cidadãos, ele deve considerar a vida de qualquer pessoa como sagrada enquanto essa pessoa não tiver sido despida de seus direitos por um tribunal de seus concidadãos: e deve sacrificar sua própria vida, se necessário for, para preservar a vida mesmo de um suspeito enquanto esse suspeito não tiver sido condenado pela sociedade de que faz parte, e da qual o policial é apenas um representante por contrato de salário. Em se tratando dos seus concidadãos, portanto, o dever do policial — ou do soldado — no exercício de suas funções empregatícias é morrer, se for preciso; matar, nunca.
Na nossa concepção de moral e cívica, portanto, é absolutamente necessário que os cidadãos parem de se deixar impressionar ou intimidar por políticos, militares, funcionários, policiais, ou outros representantes da "autoridade". Não somos nós quem tem obrigação de respeitar toda essa gente: é essa gente, nossa empregada, quem tem obrigação de nos respeitar.
Por este motivo, é necessário proibir que organismos governamentais falsifiquem a história nacional para perverter, através de métodos de propaganda, o equilíbrio emocional de seus patrões presentes — os cidadãos — e dos seus patrões futuros — as filhas e filhos dos cidadãos. A "pátria" não deve jamais ser apresentada como uma abstração filosófica ou ética, e sim como a realidade sócio-econômica que é com raízes num passado invariavelmente escabroso. Consideraríamos a maior tolice da parte do paciente de um psicanalista que ele tentasse se enganar a si próprio quanto à origem dos seus recalques e complexos: sabemos, aliás, que a função do psicanalista é precisamente impedir que seu cliente minta a si próprio sobre as suas motivações. No entanto permitimos que, no estudo da "história pátria", os letrados que nos engambelam varram o lixo de que somos feitos para debaixo do tapete dos nossos preconceitos, como empregadas desmazeladas ao arrumarem a casa! Como poderemos estar cônscios de nossas legítimas aspirações nacionais se não tivermos uma noção ampla e objetiva das raízes da nossa cultura, por mais escusas que essas sejam? Envergonhamo-nos do passado? Essa é a sina de todo ser humano que aspira ao progresso e à evolução moral e cívica, e não é escondendo de nós mesmos as nossas mazelas históricas que nos impediremos de repeti-las!
Portanto, devemos repudiar com a maior indignação quaisquer tentativas de nos apresentarem a nossa história pátria "expurgada" de crimes, desvarios ou falsas ambições: devemos exigir que nossas filhas e nossos filhos aprendam os erros dos seus ancestrais, e os motivos desses erros. Como bem disse um sábio, aqueles que não se lembram claramente dos erros do passado estão condenados a repetir esses erros no futuro.
Antes de terminarmos este breve tratado, devemos mencionar o assunto da punição de crimes contra a nação. Quando um cidadão mata outro, isto é um assunto particular entre dois indivíduos, que só merece a atenção da comunidade em termos de profilaxia ou compensação econômica. Colocar um assassino na cadeia é um duplo desperdício: o assassino já subtraiu um cidadão do esforço comunitário; como se isto não bastasse, a comunidade subtrai outro cidadão (o assassino) deste esforço, e paga a sua manutenção com o tesouro público, desta forma onerando a todos por causa do erro de um. Assassinos deveriam ser forçados a trabalhar mais, não serem subtraídos do trabalho; e deveriam ser responsabilizados pelos dependentes daqueles por eles eliminados da corrente social. Caso sejam incapazes de assim fazer, deveriam ser conservados sob observação, porém em atividade; e caso reincidissem em seu crime, assim onerando ainda mais o bem estar comum, deveriam então ser eliminados permanentemente, como perturbadores que são da ordem pública.
Mas o assassino, como já dissemos, causa dano a um indivíduo, não à nação; o empregado público, porém, que aceita suborno ou subtrai dinheiro do erário, está causando dano à comunidade inteira. O político desonesto ou o funcionário público corrupto são muito mais prejudiciais à "pátria" do que um assaltante, um assassino, ou um gatuno. O político corrupto lesa a nação inteira e seu crime deveria ser considerado como hediondo. É devido à venalidade de tais empregados desonestos que viadutos ruem dias após serem inaugurados, matando centenas de empregadores; edifícios começam a cair aos pedaços com apenas seis meses de uso; florestas e rios são dizimados pela cobiça cega de interesses escusos, causando incalculáveis prejuízos à ecologia do futuro; e — por último, mas o mais importante! — a atitude de que o governo é patrão do povo, em vez de precisamente ao contrário, é encorajada e mantida através dos séculos.
Quando um rei persa tencionou invadir a Grécia, ele mandou seus engenheiros construírem uma ponte, a qual ruiu com a primeira tempestade. O rei mandou executar os engenheiros; a ponte construída pela leva seguinte resistiu à passagem de todo o seu exército. Aqueles que se lembram dos acertos do passado estão capacitados para repetirem esses acertos, tanto no presente quanto no futuro.

